domingo, 11 de novembro de 2007

Peneco - cigarros

Por Marcelo Rubens Paiva

O desespero do fumante em virtude do vício cria situações embaraçosas que codificam pequenas neuroses contemporâneas. Mas não é culpa apenas dos fumantes. Existe quem não os tolera e combate a sua poluição danosa em ambientes abertos e fechados: a cruzada dos não fumantes.1) Você é um fumante profissional se já calculou quanto tempo leva para fumar um cigarro. Tal parâmetro é fundamental para o dia-a-dia. Por exemplo. Você está no carro e vai a um reunião em que não pode fumar. Acende um cigarro precisamente nos minutos que antecedem a reunião? O cigarro chega ao fim exatamente na fronteira entre o paraíso, onde se pode fumar, e o inferno, onde há vigias, sensores e nenhum cinzeiro?2) Quando você vai viajar de avião, o seu embarque é regido pelo cigarro? Acende um antes de entrar no aeroporto? Despachada as malas, com o cartão de embarque na mão, corre para fora do prédio para fumar mais um? E na volta atravessa o saguão, segurando a fumaça até a sala de embarque, para curti-la o máximo de tempo e soltar lá dentro, a fim de irritar, numa tática contra-revolucionária, os antitabagistas xiitas? Se você descobre que o avião atrasa, sai da sala de embarque, corre até a calçada para acender outro? Diz aos seguranças, que tem que sair, pois esqueceu o marca-passo no balcão da companhia, ou confessa que vai fumar um cigarrinho e já volta? Confessa envergonhado ou de peito erguido? 3) Você é daquele tempo em que nos aviões a fileira da direita era para não fumantes e a da esquerda para fumantes. Só não podia fumar quando a aeronave se encontrava no solo. Mas assim que ela decolava, seus olhos não desgrudavam do sinal em que um cigarro é riscado por uma luz vermelha: o de proibido fumar. Se o piloto demorava para desligar o sinal, mesmo com o trem de pouso recolhido, você gritava “se liga aí, comandante”? 4) Na época em que deixaram a frente da cabine para os não fumantes, e as últimas fileiras para os fumantes, você passava a viagem lá atrás assoprando com prazer a fumaça nos dutos de ventilação? Fumava em pé papeando com passageiros viciados? 5) Você é realmente viciado se sabe de cor em quais restaurantes pode fumar e elimina da agenda em quais não pode, sabe os cantos dos shoppings em que não há câmeras e conhece todas as salinhas de fumantes de todos os aeroportos. Logo logo chega o armagedon: será proibido fumar em ambientes fechados. Você torce para a elevação do nível dos mares chegar antes?6) Proibiram o cigarro em todas as aeronaves no solo e no ar. Você parou de viajar? Só voa em vôos com menos de duas horas, o tempo que tolera ficar sem nicotina? Fuma no lavatório - também conhecido como toalete, reservado, WC -, cobrindo os dutos com papel higiênico e o sensor de alarme com saco plástico, tal qual Capitão Nascimento? Fuma e assopra a fumaça para dentro do vaso sanitário, puxando a descarga ininterruptamente?7) Como você reage às matérias da tevê sobre câncer no pulmão, como se estivessem falando de um País longínquo ou telefona para o avô de 90 anos da prima da colega de trabalho da sua mulher, que fuma e nunca ficou nem gripado? Afirma que aquele canal é sensacionalista? Acende outro cigarro? 8) E se for o Boris Casoy olhando para dentro dos seus olhos, falando com a gentileza de uma enfermeira de UTI, “quer morrer? fume!”, você desliga a tevê, porque está na hora do começar a ler mais? Acende outro?9) Depois de uma espera causticante, chega a sua vez na mesa do restaurante tão badalado, e você se senta feliz. Acende o seu cigarrinho para comemorar. O garçom avisa que é área de não fumantes. Você fica sem fumar, ou ameaça com a faca que o outro garçom acabou de colocar à sua frente?10) A mesa ao lado reclama da fumaça. Mas não verbaliza. Faz gestos, caretas, abana as mãos contra a fumaça. Você também faz caretas? Abana com as mãos, reclamando que o Chanel 5 da coroa está fora de moda? Você solta a fumaça na cara deles?!11) Pois bem, chega de brincadeira, seu pneumologista, apesar de ter um maço do mesmo cigarro que você fuma no bolso, avisa que a sua hora chegou, parceiro, e que aquele pigarro constante não é por causa da poluição, nem da aula de ioga com incenso, nem da diarista que faz frituras sem abrir as janelas. É o momento de parar de fumar. Ele oferece seis opções: na marra; com adesivos de nicotina; com adesivos e chicletes de nicotina; com adesivos, chicletes e um antidepressivo; com adesivos, chicletes, antidepressivo e um ansiolítico; com adesivos, chicletes, antidepressivo, ansiolítico e acupuntura. Você escolhe a primeira opção?12) Depois de muitas tentativas, você não conseguiu parar de fumar na marra. Nem com adesivos. Nem com adesivos, chicletes de nicotina e antidepressivo. Nem quando incluiu o ansiolítico. Mas conseguiu quando juntou adesivos, chicletes, antidepressivo, ansiolítico, acupuntura, meditação, uns passes brabos, muito ebó para Xangô, chá do Daime, reza forte, promessa e um novo vício adquirido, o de mascar balas. Como ex-fumante, você se vinga e abana o ar com as mãos, quando há fumaça na mesa ao lado? Chama o gerente, reclama com os garçons e faz caretas? Ou passa a freqüentar apenas restaurantes de não fumantes? 13) Confunde aquelas vítimas da indústria tabagista nas calçadas, fumando o que não podem fumar dentro dos escritórios, com figurantes do novo filme do Harry Potter? Jogou fora todos os cinzeiros da sua casa ou manteve no mesmo lugar, como urnas mortuárias? Proíbe a maioria dos amigos de fumar na sua casa? E no seu carro? Muda de amigos? 14) Acha-se imortal, livre de todas as doenças? Sobe escadas, ao invés de usar o elevador, com um sorriso na cara? Ou começa a fumar cigarro de cravo, depois cigarrilha, até pedir para soltarem fumaça na sua cara, os primeiros sintomas de que voltará a fumar?Perdemos um leitor especial, Paulo Autran, que toda vez que me via, chamava, “menino!”, e comentava as minhas colunas - um apaixonado arrependido pelo cigarro, como deixei de ser há três anos, um mês, 28 dias, 22 horas e 36 minutos, graças a adesivos, Zyban, ansiolíticos, uns passes brabos, ebó para Xangô, um novo vício adquirido, o de mascar balas, e muuuuita força de vontade.
O Estado de São Paulo - Caderno 2, 20 de outubro de 2007.

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