Consegui parar - Saudades da tragada
RICARDO MELOSECRETÁRIO-ASSISTENTE DE REDAÇÃO
Parar de fumar não é fácil, já vou avisando. Palavra de quem, durante 34 anos, resistiu a velhas ladainhas e se rendeu aos encantos do tabaco. Diziam que beijar um fumante equivalia a degustar cinzas e que, com meus dois maços ao dia, não conseguiria sentir sabores verdadeiros e o cheiro das flores, por exemplo. Como a família já tem o seu gourmet, nunca quis ser jardineiro e tampouco faltam mulheres ávidas para ter um cinzeiro como acompanhante, tais conversas só me davam vontade de acender mais um correndo.Sinto informar o governo e seus publicitários que também nunca me impressionaram aquelas fotos de mau gosto, com gente morta-viva agonizando. Sempre soube que o fumo "faz mal" -mas também "faz bem". Conforme a situação, a nicotina estimula, ou então relaxa, e está sempre pronta a te acompanhar em momentos de angústia, solidão ou euforia. Só quem já fumou conhece as delícias que uma tragada na hora certa pode proporcionar.Até o dia em que os malefícios parecem suplantar os benefícios. Assim aconteceu comigo. A respiração começou a falhar, e falta de ar sempre foi algo que me apavorou. Resolvi então parar, não por medo de um câncer futuro (quem viverá para sempre?), mas por temor de um enfisema no presente -embora os médicos me assegurassem que meus pulmões davam inveja a não-fumantes.E há três anos parei.Minha receita? Nada de remédios, acupunturas (odeio que me espetem!) ou coisas semelhantes. Caso você queira parar de fumar, ponha na cabeça que o cigarro, assim como o resto, deve servir a você, e não o contrário. No início será penoso, como toda despedida. Mas a sensação de liberdade de poder dormir e acordar longe de um maço pode, quem sabe, valer a pena tamanho esforço.A má notícia é que você provavelmente terá um raciocínio mais lento, perderá um companheiro fiel, silencioso, e sonhará quase toda noite com o cigarro. Terá mais saúde física, é verdade, mas em compensação abrirá mão de momentos prazerosos. Sinceramente, nesse mundo cada vez mais aborrecido uma tragada dá saudades.
RICARDO MELOSECRETÁRIO-ASSISTENTE DE REDAÇÃO
Parar de fumar não é fácil, já vou avisando. Palavra de quem, durante 34 anos, resistiu a velhas ladainhas e se rendeu aos encantos do tabaco. Diziam que beijar um fumante equivalia a degustar cinzas e que, com meus dois maços ao dia, não conseguiria sentir sabores verdadeiros e o cheiro das flores, por exemplo. Como a família já tem o seu gourmet, nunca quis ser jardineiro e tampouco faltam mulheres ávidas para ter um cinzeiro como acompanhante, tais conversas só me davam vontade de acender mais um correndo.Sinto informar o governo e seus publicitários que também nunca me impressionaram aquelas fotos de mau gosto, com gente morta-viva agonizando. Sempre soube que o fumo "faz mal" -mas também "faz bem". Conforme a situação, a nicotina estimula, ou então relaxa, e está sempre pronta a te acompanhar em momentos de angústia, solidão ou euforia. Só quem já fumou conhece as delícias que uma tragada na hora certa pode proporcionar.Até o dia em que os malefícios parecem suplantar os benefícios. Assim aconteceu comigo. A respiração começou a falhar, e falta de ar sempre foi algo que me apavorou. Resolvi então parar, não por medo de um câncer futuro (quem viverá para sempre?), mas por temor de um enfisema no presente -embora os médicos me assegurassem que meus pulmões davam inveja a não-fumantes.E há três anos parei.Minha receita? Nada de remédios, acupunturas (odeio que me espetem!) ou coisas semelhantes. Caso você queira parar de fumar, ponha na cabeça que o cigarro, assim como o resto, deve servir a você, e não o contrário. No início será penoso, como toda despedida. Mas a sensação de liberdade de poder dormir e acordar longe de um maço pode, quem sabe, valer a pena tamanho esforço.A má notícia é que você provavelmente terá um raciocínio mais lento, perderá um companheiro fiel, silencioso, e sonhará quase toda noite com o cigarro. Terá mais saúde física, é verdade, mas em compensação abrirá mão de momentos prazerosos. Sinceramente, nesse mundo cada vez mais aborrecido uma tragada dá saudades.
Não consegui para - Ninguém é ex-fumante
HELOÍSA HELVÉCIAEDITORA DO VITRINE
Fumante desde os 13, tentei parar mais de três vezes, mas só considero séria a última experiência. As outras foram tão do truque que nem merecem figurar na minha lista de fracassos.Minha última verdadeira tentativa de viver sem fumar durou quase nove meses. Eu arredondava a conta da abstinência para "um ano", quando tagarelava sobre o feito. Não para mentir, mas para garantir o futuro e também ajudar a construir minha nova identidade heróica.Esse vício, como os defeitos em geral, é um alicerce da personalidade: um fumante é um fumante, com fumaça e cinzas e sopros e tudo que compõe o quadro. Um não-fumante como é? Na versão que vesti naqueles meses com a naturalidade que me foi possível, era alguém deslumbrado com a própria "força de vontade" e que falava muito sobre a coisa. Sério, falei tanto na época, alardeei tanta vitória e recebi tanto elogio que me sinto impostora ainda e detesto, agora, falar nisso. Imagine escrever.Bom, seja um ano ou nove meses, uma abstinência desse tamanho não é um fracasso, pelo menos da minha perspectiva. Tudo bem que viciados são autocomplacentes, mas também os especialistas toleram as recaídas, elas prenunciam um caminho até a "cura". Entre aspas, claro. Todos os clichês que a gente ouve e lê sobre dependência são uma maldita realidade. O principal é este: ninguém é ex-fumante.No meu caso, foi o desprezo a essa evidência, o clima de "já ganhou", que comprometeu o resultado. Limpa por longa temporada, já tinha esquecido do sofrimento do primeiro dia sem o primeiro cigarro da manhã. Eu me sentia a rainha da "força de vontade".Só se for força de vontade de fumar. Depois de um jantar, alguém rodou na sala uma caixa de cigarrilhas. "Cigarrilha não é cigarro. Tudo bem." Raciocínio típico de viciado. No dia seguinte, comprei uma caixa. E fim.
HELOÍSA HELVÉCIAEDITORA DO VITRINE
Fumante desde os 13, tentei parar mais de três vezes, mas só considero séria a última experiência. As outras foram tão do truque que nem merecem figurar na minha lista de fracassos.Minha última verdadeira tentativa de viver sem fumar durou quase nove meses. Eu arredondava a conta da abstinência para "um ano", quando tagarelava sobre o feito. Não para mentir, mas para garantir o futuro e também ajudar a construir minha nova identidade heróica.Esse vício, como os defeitos em geral, é um alicerce da personalidade: um fumante é um fumante, com fumaça e cinzas e sopros e tudo que compõe o quadro. Um não-fumante como é? Na versão que vesti naqueles meses com a naturalidade que me foi possível, era alguém deslumbrado com a própria "força de vontade" e que falava muito sobre a coisa. Sério, falei tanto na época, alardeei tanta vitória e recebi tanto elogio que me sinto impostora ainda e detesto, agora, falar nisso. Imagine escrever.Bom, seja um ano ou nove meses, uma abstinência desse tamanho não é um fracasso, pelo menos da minha perspectiva. Tudo bem que viciados são autocomplacentes, mas também os especialistas toleram as recaídas, elas prenunciam um caminho até a "cura". Entre aspas, claro. Todos os clichês que a gente ouve e lê sobre dependência são uma maldita realidade. O principal é este: ninguém é ex-fumante.No meu caso, foi o desprezo a essa evidência, o clima de "já ganhou", que comprometeu o resultado. Limpa por longa temporada, já tinha esquecido do sofrimento do primeiro dia sem o primeiro cigarro da manhã. Eu me sentia a rainha da "força de vontade".Só se for força de vontade de fumar. Depois de um jantar, alguém rodou na sala uma caixa de cigarrilhas. "Cigarrilha não é cigarro. Tudo bem." Raciocínio típico de viciado. No dia seguinte, comprei uma caixa. E fim.
Fonte: Folha de São Paulo, Cotidiano, domingo, 23 de setembro de 2007.
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