domingo, 13 de julho de 2008

8Th IUHPE Conference on Health Promotion and Education

Em Turim, Italia, 9 a 13 de setembro.
Link para o sítio da conferência: www.hp08torino.org/
Nosso resumo:
PROPOSAL OF AN INTERDISCIPLINARY SERVICE MODEL IN HEALTH PROMOTION

Vedovato GM1, Oliveira AC2, Nascimento AB2, Motta CG3, Ramalho CC3, Sampaio P3, Sanches PP3, Ranzani OT4, Otsubo EY3, Ferreira Júnior M4, Chaves EC2, Jorge MIE1, Paiva V3
1Nutrition Department – School of Public Health – Sao Paulo University
2Department of Doctor-Surgical Nursing – School of Nursing –Sao Paulo University
3Department of Social Psychology – Psychology Institute – Sao Paulo University
4Healthy Lifestyle Promotion Center – Medical School – Sao Paulo University
INTRODUCTION
Understanding the Health Promotion as the articulation of actions that involve the strengthening of individual and collective capacities acting on the overall framework of the state and on uniqueness and autonomy of the subject, there is the need for interdisciplinary work that offers a new look to the health professional, so that the subject is not upheld in a fragmented manner. Founded on the conceptions of Health Promotion and Interdisciplinarity, was developed by the Academic League for the Promotion of Health (ALPH) of the University of Sao Paulo Medical School – Hospital das Clínicas (USPMS-HC), a protocol proposal allowing the performance of "health promoters" to the autonomy of the subject in the development of continuous transformations on their level of health and living conditions.
OBJECTIVE
Propose a Model of Care for the Health Promotion founded on the interdisciplinary.
METHODS
A systematic review was conducted between the years 1990 and 2006 in databases Lilacs, Scielo and Medline, using as a matter of experience reporting on individual care for the Health Promotion. Based on previous works, a Model was developed with the aim of: provide common language to health professionals; consolidate the interdisciplinary care; identify demands about harmful life-styles that hinder the possibility of full health of the person who seeks the service; and locating the subject as a co-participant in their own process of promoting health. The development and implementation of this Model required the development of an instrument of diagnosis and intervention, which was applied at the USPMS-HC by ALPH, formed by students of Medicine, Nursing, Nutrition and Psychology at the University of Sao Paulo. The pilot project of the instrument was applied in the period from 10/01/2006 to 08/01/2007, with the participation of 16 subjects referred by the Healthy Lifestyle Promotion Center of USPMS-HC. And since then, appears to be operating under supervision of teachers and professional from USPMS-HC.
RESULTS
Assuming the design that the Model is based on interdisciplinary proposal designed to enable the subject about the seizure of how he relates with itself and with its everyday universe, was developed an instrument for diagnosis and intervention, composed of four modules and applied by a multidisciplinary pair academics. The first module referred to the collection of socio-demographic data and the survey of information about ways of live and work. The second is basically structured on points: how the subject describe itself, the detailing of a habitual day and one day of rest, the exposure of their forms of relationships and social networks of support; presentation of satisfactory or unsatisfactory aspects in the process of their health. The third, included a diagram for evaluation of six major spheres that make up the lifestyle (diet, physical activity, sleep and rest, work, entertainment and relationships), so that the subject is likely front with aspects of change, identifying life in context of what would be the barriers and facilitators of this dynamic process. At the end of the first meeting, the person must indicate an initial priority in search of health, signed in one of six areas suggested. The fourth module referred to the appointment of a interdisciplinary discussion with the supervisors about the case and the proposal to be presented to the subject, namely routing approach with group or individual in accordance with the criteria defined by the interdisciplinary team together with the subject.
CONCLUSIONS
There are no scientific studies that report the development of instrumental technology in Health Promotion. The proposed model charged a more complex, dynamic, participatory and comprehensive Health Care, encouraging interdisciplinary and co-responsible attitude of the subject.

quinta-feira, 10 de julho de 2008

Efeito dominó

Pesquisadores da Universidade Harvard, que acompanharam mais de 12 mil pessoas por 32 anos, viram que os fumantes abandonam o cigarro em grupos.
FLÁVIA MANTOVANIDA REPORTAGEM LOCAL

Costuma começar cedo. Para parecer mais velho, fazer tipo ou agradar aos amigos, o adolescente dribla aquele gosto de cinzeiro e disfarça os acessos de tosse até que ganha intimidade com o cigarro e passa a se sentir parte da turma. Com o tempo, a nicotina age, a dependência se instala e ele pode nem se lembrar de como tudo começou. Mas uma volta ao passado provavelmente vai mostrar que as primeiras tragadas foram dadas por influência alheia.
Pois um novo estudo mostra que o mesmo raciocínio vale para parar de fumar: quando alguém abandona o vício, acaba contagiando outros fumantes em volta a largarem o cigarro. Publicado no "New England Journal of Medicine", o levantamento acompanhou, por 32 anos, 12.067 pessoas, que tinham vínculos -familiares, profissionais ou de amizade. Os pesquisadores, das universidades Harvard e da Califórnia, constataram que as pessoas abandonam o vício em grupos.
Os laços mais fortes detectados foram os de marido e mulher: no caso de cônjuges, o fato de um deles parar diminui em 67% a chance de o outro continuar fumando. Entre dois amigos, a redução é de 43%. Entre irmãos, a influência é menor: 25%. Já entre colegas de trabalho, o que o estudo mostrou é que depende do tamanho da empresa: nas pequenas, o fato de um funcionário parar reduz em 34% a chance de o outro continuar fumando. Nas maiores, não houve essa associação."O trabalho mostra que as decisões de parar de fumar não são tomadas só por indivíduos, mas por grupos inteiros", disse à Folha Nicholas Christakis, um dos autores do estudo.Segundo o pesquisador, a influência se dá de forma direta e indireta, entre pessoas que se conhecem e não se conhecem. No primeiro caso, é fácil perceber como isso acontece: uma pessoa pára de fumar e outro fumante próximo a ela se sente inspirado a parar também."Chamamos de fenômeno da segunda onda. Quando a gente joga uma pedra na água, gera várias ondas e acerta uma superfície muito maior. Da mesma forma, quando se cria um ex-fumante, os outros percebem que ele conquistou algo novo e se estimulam a seguir o mesmo caminho", compara o pneumologista Sérgio Ricardo Santos, coordenador do PrevFumo (Núcleo de Apoio à Prevenção e Cessação do Tabagismo), da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo).Segundo Santos, quanto mais próximo for o ex-fumante, maior costuma ser essa influência. "Dentro do núcleo familiar, é altíssima. Os pais estimulam muito os filhos e vice-versa. A relação entre marido e mulher é a mais forte", diz.
A auxiliar administrativa Priscila Bezerra, 24, e o gerente de contas Gustavo Sachi, 27, ainda são namorados, mas o exemplo dele foi decisivo para que ela abandonasse o cigarro. Quando eles se conheceram, os dois fumavam. Há dois anos, Gustavo decidiu parar "de um dia para o outro". "Não traz benefício nenhum. O cheiro é ruim, você gasta dinheiro e faz mal para a saúde", justifica.Depois que ele conseguiu, Priscila conta que o namorado, sutilmente, mandava recados. "Ele não chegou a falar para eu parar, mas me ajudou a cortar. Passou a reclamar do cheiro, do gosto, de quando eu ia comprar cigarro. Eu não podia mais fumar no carro dele. Tomei aversão ao cheiro e parei", diz ela.Hoje, os dois comemoram. "Sinto mais o cheiro e o gosto da comida, meu condicionamento para os esportes aumentou", diz Gustavo. Segundo Priscila, além de ser bom para ela, parar ajudou no relacionamento. "Melhorou a sintonia entre nós dois."Sociedade não-fumanteA pesquisa também mostrou o impacto indireto que uma pessoa que pára de fumar exerce sobre o grupo social de fumantes, mesmo que esses indivíduos não se conheçam. É como um efeito dominó: quanto mais gente abandona o vício, mais a sociedade vai se tornando hostil ao tabagismo, e isso desfavorece o hábito de fumar.
Para Tânia Cavalcante, chefe da divisão de controle de tabagismo do Inca (Instituto Nacional de Câncer), o tabagismo é uma doença "transmissível socialmente". "Numa sociedade em que todos fumam, a tendência é que esse comportamento cresça, ainda mais sendo uma dependência. O mesmo vale para o inverso."Segundo Sérgio Santos, o estudo de Harvard é o maior já feito e introduz um conceito novo: o da contagiosidade de parar de fumar. "Com a maior educação sobre o risco de fumar, diminui o número de fumantes, e cria-se um ambiente favorável a parar. É uma tendência em vários países. O fumante se sente acuado."Ao analisarem as relações nos círculos familiares e de amizades, os pesquisadores detectaram essa marginalização do fumante. O estudo mostra que, de 1971, início do levantamento, até 2000, último ano avaliado, eles foram se tornando mais periféricos nas redes sociais.
Para o pneumologista pediátrico João Paulo Lotufo, responsável pelo Projeto Antitabágico do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo), a aprovação de leis antifumo em ambientes fechados em vários países contribui para desencorajar o tabagismo. "Mudou o enfoque por causa do tabagismo passivo. Se eu não fumo, estar perto de um fumante é ruim para mim. Não-fumantes que moram com fumantes têm 25% a mais de chance de terem infarto e câncer de pulmão", exemplifica.A secretária Lindaci Maria Soares, 48, conta que esse foi um dos motivos pelos quais ela resolveu parar, após quase 40 anos fumando. "Mesmo quem fumava há muitos anos está parando. Quase não há ambiente para o fumante. Só se pode ir a áreas abertas e, mesmo assim, as pessoas reclamam."Outro fator que pesou muito foi ter descoberto uma bronquite crônica. Ela diz que adorava fumar e que era uma "referência" para os outros fumantes. Inclusive para as três filhas, Josiene, 21, Luciene, 26, e Cristiene, 27, que fumam desde a adolescência. "Elas me vêem como exemplo até nesse vício horroroso. Se eu não parar, elas não param", diz. A mãe de Lindaci também fumava.Agora que ela decidiu parar, as três filhas também se animaram. A do meio, Luciene Soares Luiz, fumante desde os 12, acompanha a mãe ao programa especializado que ela freqüenta. "Só fui [ao programa] porque ela estava indo. Perdi minha avó para o cigarro e fiquei assustada quando vi que minha mãe está doente", conta.TratamentoPara Jônatas Reichert, presidente da comissão de tabagismo da Sociedade Brasileira de Pneumologia, outro fator que contribui para que parar de fumar se torne contagioso é o avanço nos tratamentos. "Antes, as pessoas não passavam muito a experiência para as outras porque, ao tentarem e falharem, sentiam-se impotentes. Hoje, com mais possibilidades de tratamento, aumentou o índice de sucesso e elas têm mais contato com casos bem-sucedidos", diz.Segundo Reichert, apenas 5% das pessoas conseguem abandonar o vício sozinhas. Ao sentir falta de ar e outros efeitos de 35 anos de dependência do cigarro, a consultora de treinamento Leila Cinelli Silveira, 56, decidiu procurar auxílio. Recebeu a indicação de adesivos de reposição de nicotina. Inspiradas no seu exemplo, a filha, a cunhada e a irmã também resolveram parar. "Até senti uma responsabilidade maior para não ter recaídas, pois sei que tenho três pessoas atrás de mim. Foi um incentivo", diz.
Entre as estratégias inventadas por ela para driblar a abstinência, estava um "kit de sobrevivência" com cenouras, pepinos e ervas-doces cortados no tamanho de cigarros. Ela também guardou os R$ 3 diários que economizava deixando de comprar cigarros. "No fim do mês, comprei uma calça para me recompensar."Leila diz que se sente vitoriosa. "O fôlego é outro, a diferença na voz é incrível, a pele muda, os dentes ficam brancos, lisinhos. Achava que nunca iria conseguir, mas estou muito alegre comigo."
Folha de S. Paulo - Equilíbrio, 10/07/08

domingo, 15 de junho de 2008

Principal obstáculo das campanhas é a falta de adesão de funcionários

Sucesso de programa de saúde depende de exemplo
MARIA CAROLINA NOMURA, DA REPORTAGEM LOCAL
Campanhas antitabagistas e para controle da pressão arterial dos funcionários foram os programas de promoção à saúde e prevenção de doenças que mais cresceram em 2007, de acordo com a pesquisa anual de benefícios corporativos Marsh-Mercer, realizada com 255 empresas em novembro passado.
Comparada com 2006, a adesão de empresas a campanhas contra o fumo aumentou em 5%; as iniciativas de controle de pressão arterial, em 7%.
Para a psicóloga Heloísa Caiuby Coutinho, consultora da Across RH, que desenvolveu há quatro anos o programa antitabagista "Quit For Life" (ou "largue por toda a vida"), as empresas começaram a perceber como um funcionário que não é saudável pode ser caro.
"A produção do empregado fumante é menor, seu seguro-saúde é mais caro e ele perde muito tempo indo ao fumódromo. Os ciclos de doenças duram mais e, conseqüentemente, o número de faltas é maior", enumera a consultora.
Dificuldades
Mas, apesar de as empresas terem conhecimento dos malefícios do cigarro, a implementação de programas de promoção de saúde não é fácil, segundo Coutinho. "A empresa oferece a oportunidade, mas a vontade de parar de fumar ou de reeducar a alimentação depende de cada um", afirma.
Foi o caso da assistente de marketing da Philips Maria de Fátima Ferreira, que fumou durante 20 anos. "Estou na empresa há 27 anos e só percebi que existia esse programa quando realmente quis parar de fumar. Tomei remédio e fiz acupuntura", conta Ferreira, que há três anos não fuma.Para André Luis Amaral, diretor de RH da Contém 1g, o estímulo para os funcionários ingressarem nos programas de saúde depende do resultado apresentado pelas pessoas que já passaram por eles."Como lidamos com maquiagem e 98% dos funcionários são mulheres, focamos na prevenção contra a obesidade. Já há pessoas que tiveram redução do peso, e isso estimula outras.
"Na siderúrgica ArcelorMittal Brasil, em 1992, 34,5% dos empregados eram fumantes, de acordo com Fernando Ronchi, presidente do comitê de saúde da ArcelorMittal Américas do Sul e Central. "Mantemos programas específicos para a saúde. Hoje, 1,6% dos 4.300 empregados fumam e o índice de absenteísmo é de 0,4%."Em 1999, os programas da empresa foram estendidos para as famílias dos funcionários.

AIDS: DOENÇA É FOCO DE CAMPANHAS DE PREVENÇÃO EM DATAS ESPECÍFICAS

Na semana do Dia dos Namorados, funcionários da Philips receberam um cartão que alertava sobre a importância do uso da camisinha. No Carnaval, ganharam preservativos e folderes explicativos de como evitar a doença. As iniciativas fazem parte da campanha interna de prevenção contra a Aids e doenças sexualmente transmissíveis, que acontece desde 1988. "O objetivo principal é a prevenção", diz Renato Barreiros, gerente de saúde e qualidade de vida da empresa.
Folha de S. Paulo - Empregos, 15/06/2008

domingo, 8 de junho de 2008

Saúde democrática e jurídica

Por Dalmo Dallari (*) - CEBES.ORG.BR
No Estado democrático de direito, espera-se que os ministros de Estado sejam exemplares no respeito aos princípios e normas constitucionais e, além disso, que sejam capazes de enfrentar os problemas afeitos à sua pasta, propondo soluções compatíveis com os conceitos jurídico-administrat ivos já consagrados ou que, se forem inovadores, não deixem dúvidas quanto à constitucionalidade e ao respeito aos preceitos da legislação vigente. Declarações recentes do ministro da Saúde, José Gomes Temporão, deixam evidente seu autoritarismo e seu despreparo para acatar decisões democráticas que contrariem seus planos e a forma por ele concebida para executá-los. Nem a legitimidade democrática nem a legalidade são parâmetros para suas decisões. Como tem sido amplamente noticiado, o ministro da Saúde tem um projeto de criação de Fundações Estatais de Direito Privado, elaborado segundo o figurino do neoliberalismo. Antes de tudo, é oportuno lembrar que o conceito de fundação, já consagrado, aplica-se à vinculação de um fundo rentável à realização de certo objetivo. Em palavras mais simples, alguém é proprietário de bens que podem produzir renda, como ações de empresas, imóveis ou coisa semelhante. Essa pessoa decide doar esses bens para a composição de um fundo, estabelecendo que todos os rendimentos que eles produzirem serão usados para um objetivo determinado. Isso tudo é estabelecido num documento, onde se estabelece, inclusive, quem será o administrador do fundo, sobretudo para cuidar da obtenção do melhor rendimento possível e da aplicação dos resultados no objetivo estabelecido como finalidade do fundo. Aí está, em síntese, o caminho para a criação de uma fundação. É importante assinalar que os objetivos serão buscados com a aplicação dos rendimentos produzidos pelo fundo, não fazendo parte do conceito de fundação a dependência de dotações orçamentárias do poder público. O que se criou entre nós, com grande malícia, foram fundações sem fundos, ou seja, falsas fundações, que assumem tarefas do poder público, para serem executadas com dinheiro público, e são administradas segundo as conveniências dos instituidores da falsa fundação ou de seus gestores. O projeto do ministro Temporão não deixa dúvidas: as fundações receberiam recursos públicos e cumpririam metas governamentais. Como são fundações privadas, poderão contratar com terceiros a execução dos serviços, sem estarem obrigadas a fazer licitação - ou seja, o dinheiro público vai ser usado para contratar serviços com particulares livremente escolhidos pelos administradores das fundações. A par disso, os empregados das fundações serão livremente escolhidos pelos seus dirigentes, sem a necessidade de concurso público, podendo ser demitidos a qualquer momento, como nas empresas privadas. Essa proposta do ministro da Saúde foi rejeitada pela Conferência Nacional de Saúde, instituição de participação popular que surgiu para dar efetividade à disposição dos artigos 1º e 198 da Constituição de 1988, segundo os quais o poder público será exercido pelo povo, diretamente ou através de representantes eleitos, e as ações e serviços de saúde serão efetivados com a participação da comunidade. Em relação à criação das fundações estatais de direito privado, assim como no tocante à descriminalizaçã o do aborto, objetos de propostas do ministro rejeitadas pela Conferência, que reuniu mais de cinco mil especialistas da área da saúde, a manifestação de Temporão, anterior à decisão da Conferência mas já prevendo sua derrota, foi incisiva: "Se a Conferência rejeitar a fundação estatal, o projeto será mantido no Congresso Nacional". O povo, ora o povo... A vontade do ministro da Saúde é a lei, mesmo que isso represente grave dano à saúde da democracia e do direito.

(*) Dalmo Dallari é professor e jurista; artigo publicado no Jornal do Brasil em 24/11/2007

20 anos de SUS: Esperanças para a Saúde

Criado na Constituição de 1988, o sistema público democratizou o acesso e tirou o Brasil dos índices africanos em algumas doenças. Para o ex-ministro Adib Jatene e o atual, José Gomes Temporão, o que falta é dinheiro. Reportagem baseada na matéria publicada na revista Carta Capital (16/04/08)

Criado pela Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde completa 20 anos como um exemplo ambicioso de programa social destinado a atacar a histórica desigualdade nacional. Ao estabelecer a saúde como um direito do cidadão e um dever do Estado, garantiu a todos o acesso ao atendimento médico, antes restrito aos trabalhadores que contribuíam para a Previdência e a quem podia pagar.
Com programas de mérito inquestionável, como no caso da AIDS, no tratamento de algumas doenças crônicas e transplantes de órgãos, o Estado conseguiu inverter a roda da história, cujo movimento, no caso da saúde brasileira, costumeiramente foi contrário à maioria da população. Ao ampliar a atuação pública em ações de vigilância sanitária e epidemiológica, a taxa de mortalidade infantil caiu pela metade, doenças antes endêmicas, como a de Chagas, sumiram do mapa e a vacinação em massa ampliou-se. Mesmo no caso da dengue, exceção para o Rio de Janeiro, a situação, de modo geral, é bastante melhor. Na linha de frente dessas ações, os agentes comunitários de saúde. Hoje 216 mil profissionais, responsáveis pelo atendimento preventivo, terapêutico e educacional com uma cobertura de mais de 100 milhões de brasileiros.
O ex-ministro da Saúde, o cardiologista Adib Jatene considera que o país avançou consideravelmente com a criação do SUS. “A cobertura para a população de baixa renda aumentou muito. Antes, só os que estavam em um emprego formal se beneficiavam com a Previdência e assistência médica”.
Problemas de gestão ou de mau uso dos recursos também têm diminuído, ainda que os percentuais continuem a ser inaceitáveis. Não há um raio-X oficial ou confiável de quanto se perde por má gestão ou simplesmente roubalheira. A Controladoria- Geral da União (CGU) fez um levantamento das últimas ações da aplicação de repasses em 1.341 dos mais de 5,5 mil municípios brasileiros. Do 1,5 bilhão de reais repassados pelo Ministério da Saúde, 568 milhões foram desviados ou mal aplicados. Em suma, um terço do dinheiro não foi utilizado em benefício dos cidadãos. “Fraudes na saúde deveriam ser tipificadas como crime hediondo”, defendeu Jovita José Rosa, presidente da União dos Auditores do SUS (Unasus).
O reconhecimento do avanço no sentido da universalizaçã o não significa dizer que o sistema é perfeito. Médicos, usuários e especialistas em saúde pública apontam dificuldades e pontos críticos de várias espécies. Do valor elevado das mensalidades dos planos particulares (e procedimentos não cobertos pelos contratos) no setor privado às filas intermináveis, baixa remuneração e capacitação inadequada dos médicos no sistema público. Apenas 6% dos médicos se dedicam ao atendimento básico na rede. “O problema também é a demora no atendimento, a demora para marcar um exame, uma cirurgia”, conclui Adib Jatene, que considera fundamental que o governo aumente o financiamento ao SUS, e defensor veemente do sistema.
Em entrevista exclusiva à revista “Carta Capital” de 16 de abril, o ministro da Saúde José Gomes Temporão reconhece no SUS um elemento civilizatório da sociedade brasileira e prevê a expansão ainda maior do sistema.24-abr-2008 - “Pobre, mas eficiente” – Temporão fala sobre o SUS
Entrevista publicada na revista Carta Capital (16/04).
Por Leandro Fortes
CartaCapital: Por que o SUS ainda é encarado como um serviço precário e caótico no Brasil?
José Gomes Temporão: Há um subfinanciamento crônico do SUS. O Brasil gasta cerca de 1 real por dia por pessoa para manter o sistema público de saúde. Os Estados Unidos gastam o equivalente a 34 reais por dia. Isso faz com que esse sistema gigantesco só se viabilize por meio, basicamente, da sub-remuneraçã o dos profissionais de saúde, que ganham mal, e da sub-remuneraçã o dos prestadores de serviços.
CC: O SUS é visto apenas como um serviço para pobres, não?
JGT: Tem outra questão, de fundo ideológico. É a dualidade da saúde como um direito universal, e o direito da saúde como um bem que se compra. A classe média foi sendo expulsa do sistema. E não só a classe média, mas o operariado organizado também, e há décadas. Um dos pontos mais valorizados dos acordos coletivos de trabalho é, justamente, o plano de saúde privado. E, nisso, temos alguns paradoxos. Os que idealizaram e defenderam a construção do SUS não o utilizam. Os próprios ideólogos, os sanitaristas, os médicos, os enfermeiros, também não. Trabalham no SUS e usam planos privados. Os políticos, os deputados, vereadores, senadores, governadores, a elite dirigente, enfim, não usa. Então, há essa contradição.
CC: O senhor usa o SUS?
JGT: Tenho um plano de saúde da Fundação Oswaldo Cruz, de onde sou funcionário. Eu, eventualmente, uso os serviços de colegas de turma. O médico tem essa relação de colega para colega.
CC: A classe média não usa, ou não percebe que usa, mas fala mal do SUS. O sistema está, definitivamente, estigmatizado?
JGT: Normalmente, as piores avaliações do SUS são de quem não usa. Essas pessoas não lembram, ou não sabem, que o SUS tem uma abrangência muito maior e presta serviços que elas não percebem. Toda a vigilância sanitária e o controle de alimentos, cosméticos e medicamentos são garantidos pelo SUS. A política de vacinação, que todo mundo usa, é pública, assim como a política de transplante de órgãos. Os planos de saúde realizam, parcialmente, alguns transplantes, como de rim. O atendimento de urgência e emergências nas grandes capitais é feito nos prontos-socorros municipais. Quem sofre de doenças crônicas ou raras e é obrigado a tomar medicação muito cara, só pode recorrer ao SUS.
CC: Qual é, então, o grande mérito do SUS?
JGT: Partimos de um sistema centralizado, sem nenhum controle social, corrupto, totalmente privatizado e centrado num esquema de atenção hospitalar. Em 20 anos, construímos um sistema radicalmente descentralizado, com controle social, com conselhos e conferências, um modelo em que a participação do setor público, particularmente na atenção primária, cresceu muito. Fala-se muito em reforma do Estado e o SUS, na prática, é uma profunda reforma do Estado. A partir de 1988, veio essa conquista de tratar a saúde como direito de cidadania, um direito de todos. Isso teve um impacto brutal, porque, da noite para o dia, 80 milhões de brasileiros passaram a ter direito à saúde constitucionalmente garantido.
CC: O gigantismo do SUS é um mérito ou um problema?
JGT: Houve uma ampliação do acesso ao serviço que antes era restrito. Antes, as pessoas morriam sem atendimento.
CC: Não é estranho a expansão do SUS ter sido acompanhada de um crescimento igual, senão maior, dos planos privados?
JGT: A saúde passou a ser uma mercadoria como qualquer outra. As seguradoras oferecem pacotes, produtos, tudo para atrair a classe média. E, agora, mais do que nunca, porque 20 milhões ascenderam das classes D e E para a classe C. Essas pessoas se vêem fascinadas pelo status de ter um plano de saúde, mesmo que seja uma coisa precária. Elas só vão perceber o problema quando precisarem ser atendidas e descobrirem que, muitas vezes, o tal plano não funciona de verdade. O SUS, embora público, não é estatal. O setor privado, sobretudo o filantrópico, é responsável por 50% das internações e atendimentos de saúde. Mas há um tratamento de dupla porta de entrada: enfermaria para os pacientes do SUS, quartos para os pacientes de planos privados.
CC: É uma regra geral?
JGT: Há uma diferença entre a percepção do SUS na maioria dos municípios de pequeno e médio porte, onde a satisfação em relação ao sistema é alta, e nas periferias das grandes cidades, onde há filas e demora nos atendimentos. O município do Rio de Janeiro é um caso clássico. Lá, a rede de atendimento primário é péssima, embora haja grandes centros de excelência médica. Temos de mudar o modelo no qual toda oferta de atendimento é centrada nos prontos-socorros dos hospitais. Nisso, inclusive, o Rio é a síntese do mau exemplo. O sistema lá foi montado para receber toda a pressão pelas urgências dos hospitais.
CC: Por que o Rio de Janeiro gera tantas crises da saúde?
JGT: Por conta de questões estruturais e conjunturais. Por ter sido capital do País, herdou a maior rede pública de hospitais do Brasil. O carioca está acostumado a usar hospital para resolver problemas de saúde. O Rio é a capital do Ministério da Saúde, da Secretaria de Saúde estadual e da municipal. Cada esfera dessas tem uma rede gigantesca de hospitais e serviços, mas nunca trabalharam de maneira integrada e articulada.
CC: Não se integram apenas por questões políticas?
JGT: Tem questões históricas e conjunturais. Temos essa dificuldade de concepção por parte da prefeitura do que seja atendimento à saúde. Em 2001, eu era subsecretário do Sérgio Arouca (sanitarista falecido em 2003, um dos idealizadores do SUS), no início do primeiro governo Cesar Maia na prefeitura, e nós saímos depois de cinco meses, exatamente por causa dessa discordância. (Cesar Maia exonerou Arouca, secretário municipal de Saúde, por e-mail.)
CC: O prefeito do Rio disse que o senhor foi demitido porque era preguiçoso e incompetente.
JGT: Ele está usando os mesmos termos que usou contra o Sérgio Arouca, na época. Aliás, acrescentou que o Arouca era alcoólatra. É uma tentativa de me ofender, mas eu não vou entrar nessa briga. O fato é que nós oficiamos o prefeito Cesar Maia, em 2001, inúmeras vezes, sobre o risco de uma epidemia de dengue no Rio, por conta da falta de medidas de prevenção. Ele desconsiderou todas as medidas propostas e, em 2002, tivemos a maior epidemia da história do Rio de Janeiro. Essa epidemia de agora, perto daquela, é pinto. Aquela foi gigantesca, com mais de 200 mil casos, quase 100 mortos. Entregamos ao prefeito um projeto, em 2001, de implantar 650 equipes de atendimento de saúde para mudar radicalmente a organização do sistema. O projeto foi engavetado.
CC: E agora, como está a situação no Rio de Janeiro?
JGT: Quando a gente entrou na crise, de janeiro para cá, começou a morrer menos gente. A dengue está relacionada, diretamente, às condições de vida, moradia e saneamento. Essas questões estão distantes da governabilidade das autoridades de saúde. Isso envolve oferta regular de água de qualidade, esgoto, recolhimento regular de lixo, obras de infra-estrutura para garantir qualidade ambiental. E tem a dimensão assistencial. É preciso atender as pessoas e reduzir ao mínimo os óbitos. Aí, uma rede de atenção primária muito bem organizada é crucial. Porque, quanto mais precoce é o diagnóstico e mais cedo se iniciar o tratamento, melhores serão os resultados. No Rio, houve alto nível de casos e óbitos porque as pessoas foram para a fila do pronto-socorro esperar horas por um atendimento de má qualidade.

Fonte: LAPPIS

Sol de inverno também queima

JULIO ABRAMCZYK, COLUNISTA DA FOLHA
As férias e o inverno estão chegando e, para aqueles que fizerem passeios nas montanhas geladas, é recomendável o mesmo cuidado com a pele que temos quando vamos às nossas ensolaradas praias no verão. Os dermatologistas do M. D. Anderson Center, da Universidade do Texas, Estados Unidos, assinalam que o tempo frio e o céu nublado oferecem uma falsa segurança que não deve ser ignorada pelas pessoas expostas ao frio. Nos dias nublados, explicam, é errado pensarmos não haver risco em relação aos raios solares ultravioleta, profundamente prejudiciais para a pele, pois passam através das nuvens. E quando estamos ao ar livre, é impossível evitar totalmente esses raios ultravioleta nas áreas expostas do corpo. Nas montanhas, o risco de queimaduras ao bronzear-se é maior por haver menor bloqueio dos raios solares. Mesmo quando sentimos frio podemos, sem os necessários cuidados, acabar apresentando queimaduras originadas pela radiação solar. A recomendação dos especialistas para as férias nas alturas geladas das montanhas é usar jaquetas de manga comprida, chapéu e luvas; usar óculos de sol que ofereçam 100% de proteção UV; proteger o queixo e os ouvidos e, principalmente, usar cremes protetores nas áreas do corpo que ficam sujeitas a queimaduras pelo sol.
julio@uol.com.br
Folha de S. Paulo - Cotidiano, 08/06/08

Estrangeiros tratam Aids de graça no Brasil

Estimativa é que 1.209 doentes venham ao país em busca de atendimento e do coquetel anti-retroviral distribuído na rede públicaO custo de cada paciente tratado no Brasil é de cerca de US$ 2.500 (R$ 4.075) ao sistema de saúde; São Paulo é o destino mais procurado
VINÍCIUS QUEIROZ GALVÃO, DA REPORTAGEM LOCAL
Num consultório de Assunção, uma infectologista dá nome e endereço de uma colega brasileira a um paciente soropositivo doente de tuberculose e desacreditado de que fosse sobreviver no Paraguai. "Procure a doutora Denise Lotufo em São Paulo", disse.
Depois de 20 e poucas horas de uma viagem de ônibus, ele desembarca no CRT (Centro de Referência e Treinamento), um ambulatório da rede pública especializado em HIV/Aids.
Lá, recebe tratamento gratuito e todos os medicamentos anti-retrovirais, o chamado coquetel, que não é fornecido pelo sistema de saúde paraguaio.
Assim como esse paciente paraguaio, que por viver clandestinamente no Brasil pede anonimato, ao menos 1.209 estrangeiros vêm e voltam ou vieram e vivem no Brasil para receber tratamento gratuito contra a Aids, de acordo com o Ministério da Saúde.
Só em São Paulo, que registra o maior número de casos de HIV no país, são 503 deles. No Rio de Janeiro, há outros 242.
Os números, no entanto, estão subavaliados: nem todos os centros de distribuição de remédios estão integrados ao sistema informatizado da pasta.
Segundo Eliana Gutierrez, diretora da Casa da Aids, no ambulatório do Hospital das Clínicas há dois cenários: enquanto alguns estrangeiros migram para receber tratamento gratuito, outros, que descobriram ser portadores do HIV por aqui, não deixam o país para não perder o benefício."Isso desperta paixões nos pacientes brasileiros, que sentem que a pátria e eles são lesados", afirma Gutierrez."Se esses estrangeiros estão no Brasil legalmente ou ilegalmente, essa não é uma questão que vamos atrás", diz Mariângela Simões, diretora do programa de Aids do ministério.
Liderança
Na lista das nacionalidades atendidas, Portugal e Argentina aparecem na liderança, com 181 e 158 pacientes, respectivamente, que recebem o coquetel anti-Aids no país.Além disso, revela Simões, o Brasil trata 3.500 bolivianos na Bolívia e 1.100 paraguaios no Paraguai, ao doar medicamentos a esses países.
Por ano, cada paciente tratado no Brasil custa, em média, US$ 2.500 (ou R$ 4.075) ao sistema público de saúde.
Infectologista do CRT, Denise Lotufo, que virou referência no Paraguai por dar treinamento a profissionais de lá, começou a estudar espanhol para atender pacientes daquele país.
Hoje, ela acompanha o tratamento de dez paraguaios. "Dois deles passaram a morar no Brasil." Os outros vêm e voltam entre três e quatro vezes ao ano para retirar remédios e fazer exames de rotina, como a contagem da carga viral e das células do sistema imunológico.Alguns países como EUA, China e Colômbia, que estão entre as nacionalidades atendidas gratuitamente no Brasil, proíbem a entrada de portadores do HIV, mesmo que seja a turismo e por curto tempo.
Argentina com HIV abandona sua família

Na 28ª semana de gravidez, a argentina Maria Concepción Troche (ela não vê problemas em revelar o nome), 33, veio de Buenos Aires a São Paulo por alguns dias. Com taquicardia, foi levada à emergência da Santa Casa.
Em meio aos exames pré-natais, foi descoberta a condição de portadora do HIV, o vírus da Aids, e uma neurotoxoplasmose, uma doença oportunista.
Lá ficou internada até o filho Giovani, hoje com 1 ano e 4 meses, nascer.
Embora a Argentina ofereça tratamento anti-Aids no sistema público, a lista de remédios não é tão completa quanto à do Brasil, segundo o Ministério da Saúde.
Além disso, Troche nunca quis revelar a condição dela e do filho, também portador do HIV, à família. Deixou para trás marido e outra filha de 5 anos (só ele tem o vírus).
Ainda clandestina no Brasil, a argentina tenta a legalização, já que o filho é brasileiro por ter nascido em São Paulo. Hoje ela vive numa casa assistencial na serra da Cantareira e não trabalha.
Retira o coquetel no Emílio Ribas, hospital de referência no tratamento da Aids que atende outros 112 estrangeiros.
Na 28ª semana de gravidez, a argentina Maria Concepción Troche (ela não vê problemas em revelar o nome), 33, soube que era portadora do HIV numa viagem a São Paulo.Com taquicardia, foi levada à Santa Casa, onde ficou internada até o filho Giovani, hoje com 1 ano e 4 meses, nascer.Retira o coquetel no Emílio Ribas, hospital de referência no tratamento da Aids que atende outros 112 estrangeiros. (VQG)
Paraguaio veio a SP para tomar coquetel grátis

Após quatros anos em São Paulo para receber o coquetel anti-Aids, um paraguaio trouxe a irmã para se tratar de câncer, na esperança de que ela possa ter uma recuperação tão boa quanto a dele.
Desacreditado em seu país depois de uma tuberculose oportunista sucessivamente diagnosticada como outras doenças, recebeu o conselho de vir ao Brasil. À época, não tomava os antiretrovirais, essenciais para manter a carga viral indetectável e não manifestar a doença.
Pesava 55 kg quando chegou ao Brasil e não fazia os exames de rotina para quem convive com Aids, como a contagem das células do sistema imunológico. Hoje tem 73 kg. "Se estivesse lá não teria conseguido sobreviver."
Folha de S. Paulo - Cotidiano, 08/06/08

domingo, 1 de junho de 2008

Jovem banca indústria do fumo, diz médica

Pesquisadora do InCor afirma que vulnerabilidade do adolescente é conhecida e atacada por essa indústria do cigarro
Campanha "Jovens sem Cigarro", coordenada pela Organização Mundial de Saúde, tenta reduzir a vulnerabilidade.
MÁRCIO PINHO - DA REPORTAGEM LOCAL

O jovem mantém a indústria do tabaco e ela conhece a vulnerabilidade desse público. É o que afirma a cardiologista Jaqueline Scholz Issa, diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do InCor (Instituto do Coração) de São Paulo. Ela trouxe para o Brasil, em 1993, a iniciativa do Dia Mundial Sem Tabaco, comemorado ontem. Neste ano, o tema da campanha coordenada pela OMS (Organização Mundial da Saúde) é "Jovens sem Cigarro". O adolescente ainda é uma das principais vítimas do cigarro, segundo a médica, apesar de o Brasil ter evoluído no combate ao fumo. Veja trechos da entrevista concedida à Folha.

FOLHA - Por que o jovem é o foco da campanha desse ano?
JAQUELINE SCHOLZ ISSA - Ele mantêm o negócio da indústria. Depois, quando vai envelhecendo, tende a parar de fumar. Ou porque morre, ou porque adoece, ou quando após 20 anos de fumo diversas conseqüências começam a aparecer. Então, uma nova safra de jovens é atingida para manter o mercado.

FOLHA - Como ele é fisgado?
JAQUELINE - As características da adolescência o deixam vulnerável. A indústria sabe disso. Não tem mais publicidade direta, mas tem publicidade no ponto de venda, misturado com docinho, balinha. O jovem não pensa no amanhã. Ele acha que tem total domínio e controle. Mas de seis meses a dois anos de uso, ele perde a autonomia.

FOLHA - Mas tivemos uma redução no consumo ao longo dos anos?
JAQUELINE - Na década de 80, o Censo mostrou que a prevalência entre adultos era de 30%. Recentemente, por pesquisas amostrais, sabemos que é de 20% no Brasil. Tínhamos uma parcela grande da população condescende com o tabagismo e que achava até bonito fumar.

FOLHA - Esse dado também vale para o jovem?
JAQUELINE - Os dados são controversos e, no Brasil, variam muito. No Sul, as meninas fumam mais que os meninos. No Estados do Nordeste, elas fumam menos. A idade em que o jovem começa a fumar caiu para 13 anos. Era entre 15 e 16 na década de 80. Essa geração é beneficiada por não ter propaganda. Hoje, o jovem que fuma mais é de nível sociocultural mais baixo. Se não tivesse sido feito nada, o consumo entre os jovens teria disparado.

FOLHA - E o que o Brasil fez para conter essa disparada?
JAQUELINE - O Brasil é um país que, apesar de ser grande produtor de tabaco, tem resultados objetivos na política antitabaco. A OMS preconizava três medidas básicas para reduzir o consumo no mundo. A primeira era criar ambientes livres de tabaco. A segunda, a restrição à propaganda. E a terceira, o aumento de preço. O Brasil restringiu a propaganda e umas cidades criaram o ambiente livre.

FOLHA - O que precisa melhorar?
JAQUELINE - Tem que ser criada uma política de aumento de preço e aumentar os investimentos em fiscalização a quem vende cigarro a menores.

FOLHA - E qual é a reação da indústria diante dessas medidas?
JAQUELINE - A indústria sabe o que faz em relação à população, e isso está provado em documentos que tiveram que ser abertos à Justiça americana após o escândalo da supernicotina em 1996. O FDA [órgão que regula o setor de saúde nos EUA] afirmou que a nicotina do tabaco era turbinada, com inclusão de amônia e até modificação genética da folha do fumo. Começaram a sair documentos que a indústria produzia em termos de mídia e de marketing. Descobri que eu estava nos arquivos da Philip Morris, em função das minhas pesquisas sobre o cigarro.

FOLHA - Os documentos revelam informações sobre o público jovem?
JAQUELINE - Um documento da J.R. Reynolds tratou os jovens como um número. Tem dados de em que idade a pessoa começa a fumar, se muda de marca ou não, com que idade começam a parar, quanto que o mercado precisa de reposição. Outro documento mostrou que a Philip Morris tinha um projeto fundamentado na imagem que o cigarro poderia ter para o adolescente, relacionando o cigarro ao ritual de passagem para uma vida adulta, além de toda uma mídia voltada a isso.

FOLHA - A mulher também é uma aposta da indústria?
JAQUELINE - Sim. Era um mercado a ser ganho. Mostrei em 1996 que as mulheres têm mais dificuldade para largar o cigarro, mas descobrimos que a indústria já sabia disso desde a década de 60.

FOLHA - Como o Dia Mundial Sem Tabaco foi trazido para o Brasil?
JAQUELINE - Na época, o Brasil tinha pessoas que lutavam contra o cigarro que não tinham espaço na mídia. A gente conseguiu, com o nome do InCor e com muito material passado pela OMS atingir a mídia. O volume de notícias produzidas contra o fumo cresceu muito. A ação da mídia foi fundamental.

FOLHA - Por que o último relatório da OMS foi tão catastrófico, mostrando que o cigarro pode matar 1 bilhão de pessoas no século 21?
JAQUELINE - Porque em outros países emergentes a questão é outra e está explodindo o tabagismo. Em populações muito maiores como China e Índia, quase 70% da população masculina é fumante.

Folha de S. Paulo - Cotidiano, 01/06/08

sábado, 31 de maio de 2008

Dia sem tabaco

ENQUANTO autoridades sanitárias e da Receita Federal travam queda-de-braço em torno da carga fiscal a incidir sobre os cigarros, perde o país.
No Dia Mundial sem Tabaco, comemorado hoje, é preciso reconhecer que o Brasil avançou bastante no controle do tabagismo. Foi uma das primeiras nações a obrigar fabricantes a estampar nos maços alertas contra os males do cigarro. Impôs severas restrições à publicidade. A norma federal que restringe o fumo em lugares públicos é débil, mas tem sido reforçada por disposições estaduais e municipais.
O país vem fracassando, porém, em adotar uma medida universalmente recomendada, que é a elevação do preço dos cigarros pela via tributária -obviamente rebatida com o corte proporcional de outros tributos, pois a intenção não é aumentar o total da arrecadação. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), em países como o Brasil, um aumento de 10% nos preços gera uma redução de 8% no consumo.
A Receita, entretanto, recusa-se a aumentar os impostos, alegando que a majoração incentivaria o contrabando. É possível que sim, mas, do ponto de vista da saúde, não faz muita diferença. Se o preço do cigarro legalizado sobe, a tendência é que os produtos ilegais acompanhem a alta, resultando da mesma maneira numa redução do consumo.
O cigarro brasileiro é um dos mais baratos do mundo. Levantamento de 2001 com 87 países mostrou que um maço por aqui só não custava menos que na Indonésia. Ademais, em 2000 a Receita iniciou uma política de redução de impostos sobre o produto. Em 1999, o IPI sobre cigarros equivalia a 42,5% do preço do maço. Em 2007, era de 25%.
O contrabando baixou de 37% do mercado para algo como 25%, mas a evasão de impostos permaneceu. Fabricantes passaram a obter liminares judiciais isentado-os de recolher taxas. Estima-se que 18% dos cigarros produzidos não paguem impostos.
Não dá para chamar essa política de sucesso. É mais sensato seguir a recomendação de elevar o imposto sobre o fumo e combater as ilegalidades pela via tradicional: fiscais, polícia e tribunais.

Folha de S. Paulo - editorial da edição de 31/05/08

Dia Mundial Sem Tabaco: Médico explica a diferença entre vício e dependência

Cristina Almeida
Especial para o UOL Ciência e Saúde, 30/05/2008 - 22h25
Assim como fumar saiu de moda, o termo "vício" já não é o mais correto quando se trata de largar o cigarro. É o que defende o professor de tabacologia da Universidade La Sapienza, de Roma, Giacomo Mangiaracina. "O oposto de vício é virtude. Se a questão dependesse de ser virtuoso ou não, o especialista competente para a solução desse mal seria um religioso", ironiza o médico, autor de "Curare il Fumo" (Edup Editore, ainda sem tradução no Brasil).
Com o surgimento da adictologia, ciência que estuda dependências de todo o tipo, hoje a abordagem com o paciente deve envolver uma análise da relação complexa existente entre a pessoa e determinado tipo de comportamento, ou seja, é preciso verificar porque um indivíduo repete atitudes que sabe serem nocivas para si. Segundo o especialista, o objeto de compulsão não é tão importante. "Uma pessoa pode ser dependente do trabalho, do jogo ou das compras".
"O problema requer solução guiada por novas competências profissionais e não existe uma receita única para parar de fumar", diz Mangiaracina. "As pessoas devem ficar atentas com receitas prontas para esse fim", completa. Para ele, não se trata simplesmente de largar o cigarro, mas realizar uma mudança pessoal mais ampla.
Para o psiquiatra Flávio Gikovate, parar de fumar foi uma das coisas mais difíceis que conseguiu fazer por si mesmo e, por isso, é também sua maior fonte de orgulho, talvez mais importante do que os resultados obtidos pelo reconhecimento profissional. Sua experiência é relatada no livro "Fumar, um adeus possível" (MG Editores).
O psiquiatra conta que estabeleceu uma idade limite para se decidir: 50 anos. Foi mais ou menos nessa época que a batalha começou, não sem a preocupação de que um possível infarto seria mais rápido do que ele. "O desafio aparecia como um terrível obstáculo a vencer. Não tinha vontade de enfrentá-lo, mas a partir do momento que o fiz, tive que continuar. Aí, sim, fui ficando cada vez mais orgulhoso com minhas conquistas".
Ele montou uma estratégia temporal para se desligar da nicotina: um ano era o seu prazo para consumar o processo. Primeiro vieram os intervalos de 12 horas a cada cigarro; depois a escolha de não fumar no carro, na ruas. O passo seguinte foi a troca periódica da marca do produto. "Contando desde o início do procedimento, penso que a dependência química nos prende por poucas semanas".
O problema, segundo ele, foi superar a dependência psicológica. Ele experimentou a manifestação daquilo que os viciados chamam de "fissura". "O mais interessante foi observar que essa sensação se desfazia em poucos instantes e desaparecia. A partir daí, as coisas começam a ficar mais fáceis", testemunha.
"Só quem passou por todo esse processo sabe o quanto é deprimente a sensação de depender do cigarro: sair correndo do cinema ou de um aeroporto, apenas para inalar uma fumaça sem graça e sem gosto".

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Pesquisa Datafolha revela que brasileiros querem proibição total do fumo em ambientes fechados - 27/05/2008

O Instituto Datafolha acaba de fazer uma pesquisa nacional a pedido da Aliança de Controle do Tabagismo – ACT. Entre os dias 26 e 27 de março de 2008, foram entrevistadas 1.992 pessoas acima de 18 anos, sendo 77% não fumantes e 23% fumantes, em 120 municípios nas regiões sul, sudeste, norte, nordeste e centro-oeste do país. O objetivo foi conhecer a opinião da população brasileira a respeito da proibição do fumo em ambientes fechados. A margem de erro máxima para o total da amostra é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos, considerando um nível de confiança de 95%.
A grande maioria da população brasileira, 88%, é contrária ao fumo em locais fechados, e 82% são totalmente contra. É interessante observar que 80% dos fumantes são contrários ao fumo em locais fechados, sendo que 69% são totalmente contra.
A rejeição ao fumo é mais forte em restaurantes (89%) e lanchonetes (86%). Casas noturnas e bares apresentam um pouco mais de tolerância que os dois primeiros (72% e 71%, respectivamente), mas mesmo assim o índice é alto.
A pesquisa mostra que a população brasileira tem conhecimento sobre os problemas que o fumo causa à saúde, tanto de fumantes quanto de não fumantes. Quase a totalidade dos entrevistados acredita que o fumo em locais fechados causa muitos prejuízos à saúde, mesmo em quem não é fumante (83%).
A pesquisa Datafolha também perguntou sobre a mudança da lei 9294/96, que propõe a proibição total do fumo em ambientes fechados: dois terços (68%) são favoráveis ao projeto de lei..
A indústria do tabaco tenta barrar modificações na lei e dissemina o mito segundo o qual a freqüência a estes locais vai cair e gerar perdas econômicas. Mas esta tese é derrubada pelos dados encontrados na pesquisa. Perguntados sobre a possibilidade de proibição do fumo nos quatro ambientes pesquisados (bares, restaurantes, lanchonetes e casas noturnas), 88,5% dos entrevistados disseram que sua freqüência a estes locais não mudará (63,5%) ou será maior (25%).
“A pesquisa reforça os resultados que já tínhamos encontrado em 2006 e 2007 em São Paulo, também através do Datafolha. Ela só confirma o que estamos vendo no dia a dia: a população brasileira quer ambientes fechados 100% livres de fumo há muito tempo. As autoridades responsáveis pelas políticas públicas devem estar atentas aos anseios da população. O projeto que modifica a lei 9292/96 já foi entregue pelo Ministério da Saúde e aguarda encaminhamento da Casa Civil para o Congresso Nacional, esperamos que isso aconteça o quanto antes”, diz Paula Johns, diretora-executiva da ACT, e acrescenta: “Proibir o fumo em ambientes fechados protege a saúde não só dos freqüentadores desses locais, mas especialmente dos que aí trabalham, já que passam mais de oito horas expostos à poluição tabagística ambiental”.
PERFIL DA POPULAÇÃO BRASILEIRA ENTREVISTADA Segundo a pesquisa Datafolha, o perfil dos entrevistados é:
• Distribuído homogeneamente por sexo: 49% são homens e 52% são mulheres.• A maioria: o tem entre 26 e 40 anos (36%) ou 41 anos ou mais (42%), com média de idade igual a 40 anos;o possui escolaridade fundamental (50%) ou média (38%);o é casada (48%) e 36% são solteiros;o tem filhos (70%), em média 3.
E os dados econômicos apontam que a maior parcela:• Tem renda familiar mensal de até 3 salários mínimos (66%);• Pertence à classe C (53%);• Faz parte da população economicamente ativa (70%), principalmente como assalariado (com registro - 21%, ou sem registro - 10%) e free-lance (16%).
A ACT já sabia do apoio da população paulistana. Em novembro de 2007, o Instituto Datafolha fez uma pesquisa em São Paulo que verificou que 88% dos paulistanos são contrários ao fumo em locais fechados. Entre os próprios fumantes, 85% apóiam ambientes fechados livres de fumo. No que se refere à alteração da lei 9294/96, proibindo totalmente o fumo em ambientes fechados, o apoio dos entrevistados também se mostrou elevado: 73% deles são favoráveis à eliminação dos fumódromos em locais fechados, o que corresponde a sete em cada dez paulistanos.
ESTRATÉGIAS DA INDÚSTRIA DO TABACO
As empresas de tabaco têm desenvolvido uma variedade de estratégias para impedir ou atrasar políticas de controle do tabagismo. Elas contestam provas científicas dos perigos do fumo, promovem a idéia que as políticas de controle teriam conseqüências econômicas negativas, promovem programas de “acomodação” entre fumantes e não fumantes, etc.
Aqui no Brasil, um dos exemplos dessas táticas é o programa Convivência em Harmonia – desenvolvido pela Souza Cruz, empresa líder no mercado brasileiro de cigarros –, que consiste em um trabalho de assessoria técnica para elaboração de projetos de separação de ambiente e ventilação , envolvimento e treinamento do pessoal dos estabelecimentos. O programa prega uma separação idealizada do local de acordo com a pressão: área para fumantes na zona de baixa pressão, área para não-fumantes na zona de alta pressão. Estabelecimentos de entretenimento, como bares e boates, porém, têm grande interação entre os clientes e a separação não é respeitada.
A VENTILAÇÃO NÃO ELIMINA OS COMPONENTES TÓXICOS
Embora contribua para reduzir a toxicidade da fumaça, a ventilação não elimina os diversos componentes tóxicos da poluição tabagística ambiental (PTA). É bom ressaltar que a fumaça ambiental do tabaco possui 60 substâncias cancerígenas e seis substâncias capazes de provocar mutação genética, sendo por isso classificada como carcinógeno humano do grupo 1, não havendo, portanto níveis seguros de exposição.
As implicações da PTA para com a saúde costumam ser subestimadas e a ventilação é vendida como a solução para o problema.
Segundo a Sociedade Americana de Engenheiros de Aquecimento, Refrigeração e Condicionamento de Ar (ASHRAE), o órgão de referência dessa área da engenharia nos Estados Unidos, “nenhuma tecnologia de engenharia de ventilação atual demonstrou controlar os riscos impostos pela exposição à PTA, apenas reduzi-los e controlar questões de conforto relacionadas ao odor e à irritação sensorial”.
Clique aqui para ver a pesquisa completa (arquivo em PDF 675 kb )
Aliança para o Controle do Tabagismohttp://actbr.org.br/
Do Portal da Saúde

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Presença do poder público na saúde cai 20%, diz pesquisa

Estudo mostra que, em 12 anos, o setor privado brasileiro superou o SUS em volume de recursos investidos na áreaPara 29% dos brasileiros, o principal problema do país é a saúde, à frente do desemprego e da violência, revela pesquisa Datafolha

RICARDO WESTINDA REPORTAGEM LOCAL

O SUS (Sistema Único de Saúde), orgulhosamente descrito pelo governo brasileiro como a maior rede pública de saúde do mundo, está ano a ano perdendo participação no total de dinheiro que se aplica em saúde no país. O setor privado, no qual estão os planos de saúde, já superou o poder público em volume de recursos.Em 1995, 61,6% dos gastos com saúde vinham do SUS e 38,4% eram oriundos do setor privado. No ano passado, a balança pendeu para o outro lado: o SUS respondeu por 49% e o setor privado, por 51%. A participação pública caiu 20,45%.A constatação faz parte de uma pesquisa feita pelo médico Gilson Carvalho, secretário nacional de Atenção à Saúde no governo Itamar Franco e consultor do Conasems (entidade que reúne os secretários municipais de Saúde). Ele fez suas próprias contas usando dados do Ministério da Saúde, da ANS (Agência Nacional de Saúde Suplementar), do IBGE (Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e da Organização Mundial da Saúde.A Escola Nacional de Saúde Pública, ligada ao Ministério da Saúde, tem números parecidos.Essa menor participação do SUS confirma aquilo que especialistas dizem e repetem: a saúde pública vai mal porque simplesmente falta dinheiro."O que mostra que os recursos são insuficientes são, de um lado, a falta de ações e serviços e, de outro, a baixa qualidade de alguns deles. Insuficiência e ineficiência", diz Carvalho.O SUS foi criado pela Constituição de 1988. Cada um dos mais de 180 milhões de brasileiros, ao menos na teoria, deve ser atendido por um médico quando estiver doente, obter os remédios e receber todos os tratamentos. Sem pagar nada.Em número de beneficiados, a saúde privada é muito menor. Nela estão contabilizadas, por exemplo, a compra de remédios e a consulta com médicos particulares. Os planos médicos têm pouco mais de 39 milhões de clientes. Em 2000, tinham 30,7 milhões."Os planos de saúde crescem porque o SUS está cada vez pior. Um sistema público ruim é a melhor propaganda da medicina privada", diz o médico e deputado federal José Aristodemo Pinotti (DEM-SP).Uma pesquisa nacional feita pelo Datafolha no mês passado mostrou que, para 29% dos brasileiros, o principal problema do país é a saúde, à frente do desemprego e da violência.Inflação da saúdeEm 2007, segundo o estudo de Carvalho, o sistema público de saúde custou R$ 94,4 bilhões. Cerca de metade dos gastos veio do governo federal. A outra metade foi dividida entre Estados e prefeituras.Em termos absolutos, as verbas têm aumentado. Comparando os anos de 1995 e 2004, o valor que o SUS gastou por brasileiro passou de 293 para 590 dólares internacionais (moeda de comparação entre países).O problema é que o aumento foi insuficiente. A inflação da saúde cresce com mais velocidade que a inflação geral. Diariamente, surgem equipamentos e remédios mais avançados, que, em vez de substituir, passam a conviver com os antigos. O sistema fica mais caro.O Brasil está se tornando um país de idosos, que demandam mais tratamentos. É outro peso para os cofres públicos. O setor privado acompanha melhor essa inflação.A saúde convive ainda com freqüentes ameaças de perda de verbas, muitas delas concretizadas. Em dezembro, o Congresso Nacional extinguiu a CPMF, tributo que no ano passado respondeu por 35% das verbas do Ministério da Saúde.Na semana passada, o presidente Lula assinou um decreto determinando cortes em todo o governo federal. O Ministério da Saúde perdeu R$ 2,59 bilhões de seu Orçamento.Outro problema é a falta de regulamentação de um artigo da Constituição que fixa os valores mínimos que o governo federal, os Estados e as prefeituras devem aplicar em saúde. Muitos governantes ignoram o piso. Outros atingem o valor, mas valendo-se de subterfúgios como incluir restaurante popular, despoluição de águas e pagamento de aposentados nas contas da saúde. Por causa da brecha, a saúde deixou de receber R$ 9 bilhões em 2005.Para o ex-ministro da Saúde Adib Jatene, as verbas insuficientes mostram que o governo só prioriza a saúde no discurso. "Na prática, a saúde não é prioridade. Prioridade é pagar o juro da dívida [pública]."

Folha de S. Paulo - Cotidiano, 28/04/08

Para médico, ricos têm visão equivocada de que não precisam do sistema público

DA REPORTAGEM LOCAL
Para o médico Gilson Carvalho, especialista em saúde pública, falta dinheiro ao SUS (Sistema Único de Saúde) porque as classes mais ricas pensam que não precisam dele.São tarefas do SUS o controle de doenças e a vigilância sanitária (fiscalização de medicamentos, alimentos, hospitais e restaurantes). Os procedimentos de hemodiálise, os transplantes de órgãos e a distribuição das drogas de Aids também são pagos pelo sistema público."O SUS, ainda que não seja, fica quase classificado como um sistema de saúde de pobres. Falta pressão da classe média e da classe rica em defesa do sistema", diz Carvalho.Antonio Ivo de Carvalho, diretor da Escola Nacional de Saúde Pública, concorda: "O Brasil tem êxitos sanitários laureados internacionalmente".As falhas, porém, são grandes. O Rio enfrenta hoje a pior epidemia de dengue dos últimos anos. Os salários dos profissionais de saúde são baixos. O governo paga mal pelos serviços. Faltam remédios e leitos nos hospitais. A espera por uma cirurgia pode durar meses.O médico Gastão Wagner, que foi secretário-executivo do Ministério da Saúde no início do governo Lula, aponta problemas na organização do sistema. Ele diz que a população nem sempre encontra todos os procedimentos médicos porque os hospitais não conversam entre si para dividir o trabalho. Todos, mesmo os vizinhos, acabam oferecendo apenas aqueles procedimentos que são mais bem remunerados pelo SUS. "Trabalham com a lógica do mercado."Para Renilson Rehem, secretário de Assistência à Saúde no governo Fernando Henrique, apesar dos problemas, a saúde pública tem melhorado. "Você tem problema de saúde em qualquer lugar." (RW)
Folha de S. Paulo - Cotidiano, 28/04/08

Saúde está subfinanciada, admite Temporão

DA REPORTAGEM LOCAL

O ministro da Saúde, José Gomes Temporão, diz que o maior problema da saúde pública é a falta de dinheiro e que diariamente tenta convencer a equipe econômica do governo a liberar mais recursos. A seguir, trechos da entrevista à Folha:

FOLHA - As pessoas têm razão quando consideram a saúde o maior problema do país?
JOSÉ GOMES TEMPORÃO - A saúde é um grande problema, mas isso pode ser visto por outra perspectiva. Até 20 anos atrás [antes da criação do SUS], a maioria da população não tinha direito a nada. Era tratada como indigente ou objeto de caridade. Hoje 100 milhões de pessoas têm acesso ao Programa Saúde da Família, doenças foram erradicadas, somos o segundo país em transplantes, a mortalidade infantil despencou, a expectativa de vida subiu, temos os programas de Aids e de vacinação. Tratamentos que algum tempo atrás o brasileiro mais pobre não conseguia acessar hoje estão presentes na vida de cada um. Mas o sistema não é perfeito.

FOLHA - Quais são as dificuldades?
TEMPORÃO - A saúde está subfinanciada. A solução se encontra na regulamentação da emenda 29 [que determina o valor mínimo a ser investido em saúde por prefeituras, Estados e União]. Defendo que recursos advindos do consumo de cigarros e bebidas alcoólicas sejam aplicados na saúde, além da criação de um tributo. Também há a questão do gerenciamento. No ano passado, o governo encaminhou ao Congresso o projeto que cria as fundações estatais de direito privado. É impossível administrar com competência, eficiência, qualidade e custos compatíveis e remunerar bem os trabalhadores [de saúde] dentro da administração direta. É por isso que propomos o modelo de fundações, com desempenho por metas e salários competitivos.

FOLHA - Especialistas dizem que investir em saúde é pôr dinheiro num saco sem fundo. O senhor concorda?
TEMPORÃO - Essa comparação faz sentido quando se fala apenas de assistência à saúde. Se você olha a saúde só do ponto de vista da atenção às doenças, você trabalha numa ponta e esquece a outra, que é onde o processo se origina. O Ministério da Saúde está tentando mudar essa agenda, no sentido de trabalhar mais com a promoção da saúde e a prevenção. Eu tenho de impedir que as pessoas adoeçam. Você tem hoje um caldo de cultura que leva a diabetes, hipertensão, doença coronariana, derrame cerebral. Com a doença, eu gasto com internações, cirurgias, CTIs etc. Com a promoção e a prevenção, entram as dimensões relacionadas à boa alimentação, à atividade física regular, a manter o peso, a parar de fumar e a não ingerir bebida alcoólica em excesso. Para prevenir as doenças, o custo é significativamente baixo, porque passa basicamente por políticas de educação, informação e prevenção.

FOLHA - A equipe econômica do governo realmente atrapalha?
TEMPORÃO - Quem cuida das finanças olha para o equilíbrio macroeconômico e para o superávit e segura os gastos. Quem trabalha na área social está mais perto dos problemas da população, é pressionado pela sociedade e evidentemente cobra mais recursos financeiros. Como os dirigentes não usam o sistema público, têm seus planos e seguros de saúde, eles ficam mais distantes. Se todos nós, dirigentes, políticos, deputados, senadores e ministros, fôssemos obrigados a usar o SUS, o sistema público estaria em melhores condições.

FOLHA - O senhor usa o SUS?
TEMPORÃO - Até uso. Como sou médico, acabo sendo atendido por colegas.

FOLHA - Faz parte de seu trabalho diário convencer a equipe econômica a liberar mais recursos?
TEMPORÃO - É um trabalho de todo dia, o tempo todo cobrando mais recursos. O governo tem uma política macroeconômica, metas, limites. Os recursos financeiros são finitos.

FOLHA - O Brasil algum dia vai ter uma saúde de Primeiro Mundo?
TEMPORÃO - Os melhores exemplos são a Inglaterra e o Canadá, que têm sistemas de saúde universais. A pessoa paga seus impostos e tem atendimento em tudo. O Brasil tem um sistema misto, com mais de 140 milhões de brasileiros que dependem do sistema público para tudo e 40 milhões que pagam seguro e plano de saúde. A tendência no Brasil é a convivência harmônica dos dois sistemas. O SUS é uma importantíssima política de redução de desigualdade social. As pessoas não param para pensar nisso. Nós aqui avaliamos tão mal o sistema, mas os estrangeiros ficam perplexos com a filosofia, a organização, o planejamento e os resultados do SUS.

FOLHA - O Brasil será um dia como a Inglaterra ou o Canadá?
TEMPORÃO - A Inglaterra começou seu sistema em 1948. Nós começamos em 1988. E lá as desigualdades sociais são muito reduzidas. É outra história. (RW)

quinta-feira, 20 de março de 2008

Programação de aulas do 1o semestre de 2008

26 de Março
Bloco 1:
Transtornos alimentares e orientação nutricional - Profa. Denise Motta (*18h às 20h)

(das 19h15 às 20h)
Junho
04
Bloco 2:
Depressão e transtorno bi-polar (Natália)
11
Síndrome do pânico (Francine)
18
Distúrbios do sono (Tarcila)
25
Stress (Luciana)

Datas a confirmar

Bloco 3:
Abuso de drogas (Clarissa)
Uso de álcool (Lívia)
Tabagismo (Luciana)

Bloco 4: Saúde do trabalhador (Carol)
Relações familiares (Natália)
Intevenção em grupo (Érica)